Documentário – India’s Daughter

Além de suspenses e comédias, ou aquele terror trash que é ruim mas adoramos ver… Existe a necessidade de ver a seriedade das coisas, e para isso temos documentários para trazer luz a alguns assuntos que costumam ficar escondidos. Entre tantos assuntos, com tanta conversa que tenho ouvido e lido sobre gênero e de que como mesmo em pleno 2015/2016 estamos à mercê de conceitos tão absurdos e machistas, resolvi criar coragem e finalmente ver o documentário India’s Daughter. Digo “criar coragem”, pois apesar de já ter visto sobre o caso nos noticiários, mas devido à brutalidade do caso eu estava receosa de assistir por conta da abordagem, mas fui surpreendida. Sim, é forte e de cortar o coração quando são relatados os detalhes do que aconteceu.

Ao conhecer os pais da jovem Jyoti Singh já me senti arrebatada de uma dor e um sentimento que não sei nomear. A superação desta família desde a criação e empoderação desta jovem estudante de medicina que ousou sonhar, e pais que abriram mão de conceitos tradicionais e investiram no estudo e na futura carreira de uma filha mesmo quando outros diziam que era absurdo. Ver a comoção que o caso teve e de como a cultura local é tão contraditória quando diz que a mulher é como uma flor e quase a coloca em um pedestal e ao mesmo tempo desumaniza e desvaloriza a imagem da mulher como sendo inferior ao homem em tantos sentidos. Ouvir dos próprios advogados – pessoas estudadas que têm o conhecimento da lei – que a mulher é tão ou mais culpada pelo estupro que o homem. Que as mulheres se deixam levar pelos filmes e pensam que podem fazer coisas que elas não podem, pois a cultura deles está correta e as mulheres não têm espaço. Ver e ouvir isso choca, assim como o fato dos culpados não demonstrarem nenhum remorso, e ainda que eles estavam ensinando uma lição para que ela aprendesse seu lugar e que deveria ter aceitado e se mantido em silêncio.

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Leslee Udwin, diretora do documentário India’s Daughter

Ouvi uma entrevista da diretora do documentário, a britânica Leslee Udwin, no Podcast Mamilos, no programa #41 – Violência Contra A Mulher Na Internet. O relato mexe com quem está ouvindo e ainda é seguido por uma conversa sobre como a mulher é assediada diariamente nas ruas, nas redes e em tantos lugares e de tantas formas. Realmente faz a gente pensar e faz se perguntar sobre o motivo de tanto abuso e de como nós (sociedade) somos responsáveis por como as coisas estão. Vou deixar aqui u link para o podcast citado, e a indicação de ouvir os outros episódios com a Ju e a Cris trazendo à tona esse e tantos outros assuntos que permeiam nosso cotidiano e o mais importante, sem repostas, só apresentando os assuntos e nos convidando a pensar e refletir.

E pensar que quando trazemos esse assunto à tona somos taxadas de feministas e feminazis. Mas é assim tão difícil enxergar a gravidade do assunto? Quantas Jyotis terão que passar por esse tipo de situação para que realmente percebam que está errado? O documentário questiona a cultura da ‘desonra’, do estupro, da desvalorização da mulher por conta do gênero. Mas enquanto vemos que ouve uma mobilização para que a legislação mudasse e para que a punição fosse mais dura, vemos um dos acusados dizer que o endurecimento é pior para as próprias mulheres e que antes elas eram estupradas e deixadas vivas pois elas se calariam por vergonha, mas agora elas provavelmente serão mortas para que seus algozes não sejam denunciados. Quão absurdo é você ser sentenciado à morte ou ao abuso devido ter nascido com um determinado gênero? Quantas mulheres sofrem com isso em silêncio por terem medo ou vergonha? Quantas de nós sai de casa já com medo de que a qualquer esquina, no próximo ônibus/trem possa sofrer uma abordagem, um assédio, um abuso ou um estupro?

E por mais insano que possa parecer, esse documentário foi proibido de ser exibido na Índia, pois as autoridades o consideraram como difamatório para o país e que poderia inflamar ainda mais os ânimos em relação ao assunto. Aqui no Brasil ele está disponível no Netflix.

Deixo a sugestão de assistir o documentário e de reflexão, seja qual for o seu gênero. Pense, reflita, converse, participe e ajude a mudar.

Trailer:

 

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Para mais informações sobre o documentário: http://www.imdb.com/title/tt4058426/

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